Reflexões – Marcos Castro | Pandemia do medo: aspectos psíquicos

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Estamos, aproximadamente, em 210 dias vividos pela humanidade imersa na pandemia do medo – correta ou não – provocada pelo SARS-CoV-2; vírus chinês que originou a doença COVID-19; e que vem causando danos humanos, econômicos e sociais sem precedentes, desde a gripe espanhola – há um século – quando foi dizimada 25% da população mundial.

Por isso houve uma condição particular de estresse e angústia que impactou o humano, desorganizou as economias e aumentou o risco de desenvolvimento de transtornos e sofrimentos psíquicos. Óbvio que, em termos científicos, médicos, psicanalíticos e tecnológicos, muito se evoluiu, mas, novamente, a COVID-19 colocou o sujeito face ao desamparo, na medida em que, pela invisibilidade do vírus e pelo medo imposto, sentiu-se sem plena defesa psíquica capaz de, claramente, lhe proteger.

Em um recente Seminário, via web (Webnário), realizado pela ABC – Academia Brasileira de Ciências – em 20.06.2020, o Psicanalista Joel Birman, citou que: “o sentimento de desproteção gerado pela pandemia faz com que sejamos assaltados por angústias primordiais, que promovem diferentes formas de sofrimento e sintomas psicopatológicos.”

Sabe-se que, a dinâmica do aparelho psíquico atua – topograficamente – pelo processo primário (mais inconsciente) e processo secundário (mais elaborado) do ponto de vista do princípio que rege cada um.

“O processo primário rege-se pelo princípio do prazer, buscando satisfação imediata e evitar o desprazer; enquanto o processo secundário rege-se pelo princípio da realidade, buscando a sobrevivência (que é uma forma de satisfação no médio e longo prazo)” (Freud, 1920 – 1922).

Ora, fica evidente, portanto, que as idiossincrasias do sujeito que provém deste “mundo externo pandêmico” estarão energizadas em termos de desprazer e de busca pela sobrevivência.

É clara a percepção de que o aparelho psíquico tem dificuldade em lidar com este mal invisível e “novo”. Trouxe angústia, medo, sentimento de impotência, incertezas e desamparo. Esta angústia (apertamento, impotência), esta ansiedade (se muito latente), se recorrentes, sintomaticamente, podem sugerir o que Freud denominou, há cerca de um século, de “neurose atual”. Época em que o mundo vivia semelhante situação devido a 1ª Guerra Mundial e a Pandemia da Gripe Espanhola. Muito propícia e atual denominação!

Zimerman (1999), explica que “a neurose atual se refere mais diretamente que o sujeito não está conseguindo processar um excesso de estímulos que, na realidade e na atualidade estão acossando ao seu Ego.

Essencial estarmos preparados, em ato de amor, para ajudar!

Entende-se a Psicanálise em contínua evolução; portanto, não se deve mitigar os efeitos desta atualidade pandêmica no psiquismo do sujeito!

Referências bibliográficas

FREUD. S. ESB, v. XVIII, 1920-1922. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
MARI. Jair de Jesus e BIRMAN. Joel. In “Webnário” – realizado pela ABC – Academia Brasileira de Ciências -, em 20.06.2020.
ZIMERMAN. David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica – uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999.

Por Marcos Castro
Engenheiro; Especialista em Qualidade e Produtividade;
Mestre em OTH; Educador;
Escritor; Filósofo; Professor Universitário;
Educador; Palestrante; Psicanalista.
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